sexta-feira, 3 de julho de 2009



"Sinto inutilmente, em mim, uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, mas ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. Em mim, algo destrói sempre os caminhos por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser, e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. Reflui, então, às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada.

A multidão me revela, assim, que há coisas extraordinárias, vibrações estranhas. Há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei, em vão, comunicar-me. No seu bojo, tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente, tão certos estavámos de que nada havia no espaço além do nosso sistema.

Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. No seu âmbito poucas são as imagens do presente, e muitas as do passado. E se tal vida é melancólica, trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que, portanto, não desperta novas reações.
A variação violenta dos quadros, numa noite de Carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres, leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. Novas melancolias são despertadas, o homem sofre, e o amanuense põe a alma no papel.

Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo sofrendo, outro há que analisa e estiliza o sofrimento. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e, sem nenhuma análise, entregar os sentidos à doce música da Bayadera, que a radiola derrama no ar molhado.
Mas o homem espia o homem, inexoravelmente".

O Amanuense Belmiro - Cyro dos Anjos.

Obs: Não gosto de posts muito longos, mas esse trecho é genial.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Somos idiotas em tempo integral, é a estupidez que muda de forma com o passar dos anos.

O ridículo é se preocupar em não parecer ridículo. Perda de tempo: não existe nada que não seja motivo de escárnio.

quarta-feira, 18 de março de 2009




"The worst part is wondering how you'll find the strength tomorrow to go on doing what you did today and have been doing for much too long, where you'll find the strength for all that stupid running around, those projects that come to nothing, those attempts to escape from crushing necessity, which always founder and serve only to convince you one more time that destiny is implacable, that every night will find you down and out, crushed by the dread of more and more sordid and insecure tomorrows."


- Journey to the End of the Night (L. F. Céline)

domingo, 15 de março de 2009

É uma verdadeira luta pelo apodrecimento. Foram milhares de anos de aprimoramento na arte da putrefação humana até chegarmos nos dias de hoje, e olha que não é um esforço único, e sim um grande e malcheiroso trabalho em equipe; unidos na hipocrisia, nas sombras... e no lixo. Lindo.

Afinal, pra quê apenas observar se você também pode nadar na merda? É uma aptidão universal: transformar tudo aquilo que um dia foi útil em um amontoado de excremento. Pessoas fazem isso o tempo todo, e melhor: pessoas fazem isso umas às outras o tempo todo. Porque não basta você ser infeliz com a sua vidinha medíocre, também tem que desejar internamente (e às vezes nem tão internamente assim) que o outro também vá pro buraco contigo. Também não dá pra fugir à regra, aí que você não presta mesmo. Acredite, se estiver bem e feliz, é porque você não tem amigos o suficiente.

Tá bom, veja o lado positivo: ao menos todos nós sabemos cooperar em algo. Amizade é isso, não? Se alegrar com a queda alheia, e no final soltar um "se fodeu!" com um sorriso debochado na cara. O engraçado é que costumamos dizer isso ao mesmo tempo em que exalamos aquele cheiro característico de um cadáver em estado de decomposição. Depois de um tempo você nem sente mais o próprio fedor, só o do outro.

Se escolher o menos pior é uma questão de sobrevivência, nós estamos muito ferrados. Mas ok, sem problemas: temos orgulho disso também.

sábado, 14 de março de 2009

“We’d be good together. Don’t you think?”
“No”
“Why?”
“Because I’ll break your heart”
“Maybe I’ll break yours”
“Nobody breaks my heart”

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