
"Sinto inutilmente, em mim, uma vaga nervosa que quer acudir ao apelo que a multidão dirige a cada unidade. Quero rir, chorar, cantar, dançar ou destruir, mas ensaio um gesto, e o braço cai, paralítico. Dir-se-ia que há em mim um processo de resfriamento periférico. Os outros têm pernas e braços para transmitir seus movimentos interiores. Em mim, algo destrói sempre os caminhos por onde se manifestam as puras e ingênuas emoções do ser, e a agitação que me percorre não encontra meios de evadir-se. Reflui, então, às fontes de onde se irradia e converte-se numa angústia comparável à que nos provém de uma ação frustrada.
A multidão me revela, assim, que há coisas extraordinárias, vibrações estranhas. Há um mundo diverso do meu e com o qual tentarei, em vão, comunicar-me. No seu bojo, tocamos seres cuja existência nos surpreende quase dolorosamente, tão certos estavámos de que nada havia no espaço além do nosso sistema.
Habituei-me a uma paisagem confinada e a um horizonte quase doméstico. No seu âmbito poucas são as imagens do presente, e muitas as do passado. E se tal vida é melancólica, trata-se de uma sorte de melancolia a que meu espírito se adaptou e que, portanto, não desperta novas reações.
A variação violenta dos quadros, numa noite de Carnaval em que fomos abandonados pelos amigos e em que nossa porção de espaço foi invadida por outros seres, leva-nos a um mergulho mais profundo nos nossos abismos. Novas melancolias são despertadas, o homem sofre, e o amanuense põe a alma no papel.
Eis que o amanuense é um esteta: ao passo que há nele um indivíduo sofrendo, outro há que analisa e estiliza o sofrimento. Talvez fosse preferível ingerir certo vinho capcioso e, sem nenhuma análise, entregar os sentidos à doce música da Bayadera, que a radiola derrama no ar molhado.
Mas o homem espia o homem, inexoravelmente".
O Amanuense Belmiro - Cyro dos Anjos.
Obs: Não gosto de posts muito longos, mas esse trecho é genial.
